26 de agosto de 2026

OS PAINÉIS E A EVOLUÇÃO DO DOC. PEREIRA PESTANA

 

OS PAINÉIS E A EVOLUÇÃO DO DOC. PEREIRA PESTANA

Descubra porque é que a seguinte leitura/interpretação, que fazemos do Documento Pereira Pestana, está "incorrecta"

A – Repartição de Francisco Pereira Pestana (revelado em 1936)

1.   ... lembrar e pedir, por mercê, que este dia de São Vicente, que ora vem, vá ouvir missa à Sé, para ver aqueles famosos reis armados, tão fermosos, e gentis homens, os quais todos estão no paraíso...

Este trecho integrava um parecer dirigido a D. João III datado de c.1532. A leitura e interpretação que se fazia este texto permitia concluir que os Painéis (Infante, Arcebispo e Cavaleiros) estavam na Sé, e que, associado ao teor do Doc. do Rio de Janeiro, fariam parte do Retábulo de S. Vicente.

B – Em 2014 descobrimos um outro documento do mesmo autor, presumindo que fazia parte de um outro Parecer:

2.    E porém, senhor, entrando na capela-mor da Sé de Lisboa, olhe vossa alteza aquelas sepulturas dos Réis vossos Avós e nelas verá quanto melhor parecem os que não estão de arminhos, pois todos e tudo ali vai parar, não toco a redenção dos cativos, assim de Portugal como de Castela, o que muito se deve olhar

Verificámos que este trecho também recomendava que o rei fosse à Sé e que olhasse para o local onde estavam os túmulos dos avós (D. Afonso IV e D. Brites), dando destaque aos que não estavam de arminhos (os Cavaleiros vs. os Frades). Aqueles túmulos situavam-se no lado da Evangelho da capela-mor da Sé de Lisboa, isto é, na banda contrária ao local onde se situava o Retábulo de S. Vicente (na banda do Epístola). É interessante a ligação que o autor faz entre Frades de branco e as ações de redenção dos cativos.

C – Em 2021 descobrimos que o primeiro texto estava amputado nos seus extremos:

3.   E porque vossa alteza mais me não culpe, lhe torno a lembrar e pedir, por mercê, que este dia de São Vicente, que ora vem, vá ouvir missa à Sé, para ver aqueles famosos reis armados, tão fermosos, e gentis homens, os quais todos estão no paraíso, e tanto desairosos e descontentes estão os de arminhos que de ali parecem tão mal

Esta versão permitiu-nos perceber que os dois trechos faziam parte do mesmo Parecer porque que o autor estava a pedir desculpa ao rei por insistir que fizesse uma visita à Sé.

DPereira Pestana refere, assim, implicitamente, que existia uma separação física entre os Painéis e o Retábulo de S. Vicente...

 De acrescentar que entre 1530 e 1537 D. João III esteve fora de Lisboa devido ao surto da peste e que em Janeiro de 1531 a capital sofreu um violento sismo que terá estado na origem da entrada dos Painéis na Sé de Lisboa.

25 de agosto de 2026

Proposta de Reconstituição do Retábulo de S. Vicente

PROPOSTA DE RECONSTITUIÇÃO DO RETÁBULO DE S. VICENTE

Esta proposta de reconstituição ilustra o que terá sido o Retábulo de S. Vicente da capela-mor da Sé de Lisboa (1462-1690). Exclui-se o período em que os Painéis estiveram no local (c.1532–c.1570).

Esta proposta baseia-se em documentos que já existiam ou que introduzimos nesta temática. Os argumentos que apresentamos estão bastante resumidos, cujos desenvolvimentos podem ser encontrados ao longo dos nossos estudos. Contudo, permitem perceber as principais razões pelas quais defendemos que o Retábulo de S. Vicente não integrou os Painéis desde o início da sua execução.

  • 1.  Certas Visitações efectuados no arcebispado de Lisboa (1462-1473) citam a execução de um Retábulo em louvor de S. Vicente, na capela-mor da Sé, local onde estavam as suas relíquias, recorrendo-se às esmolas dadas pelos fiéis em troca da concessão de indulgências.
  • 2.      D. Jorge da Costa, arcebispo de Lisboa (1464-1501), e muito devoto de S. Vicente, acompanhou a realização do Retábulo e terá definido as cenas relativas ao santo que ficariam na pintura. Por isso, não teria admitido a inclusão de seis Painéis com 60 personagens estranhas à representação da vida, martírios, milagres e da trasladação de S. Vicente. Recorde-se que, na sua capela mortuária que mandou construir em Roma, impôs a representação tradicional (portuguesa) de S. Vicente na escultura e pintura que ficaram a decorar essa capela...
  • 3.    O Documento Pereira Pestana (composto de duas partes) é claro e notícia (c.1532) a entrada e colocação dos Painéis na capela-mor da Sé de Lisboa, junto dos túmulos régios de D. Afonso IV e D. Brites, precisamente num local oposto à zona onde se encontrava o Retábulo de S. Vicente. Este documento não faz qualquer referência a este Retábulo.
  • 4.      Não compreendemos como é que Francisco de Holanda poderia confundir, na apreciação que fez ao pintor do Altar de S. Vicente (1548), a figura de S. Vicente que lá se encontrava, com as dos presumíveis “S. Vicentes” dos Painéis, quando ele próprio desenhou o Santo, com a iconografia habitual, num tondo na sua obra “De Aetatibus Mundi Imagines” (1545-73) e nos cunhos das moedas de ouro “Vicente” (1555)?
  • 5.  O Documento do Rio (c.1570) descreve sumariamente os dois Painéis centrais, de maiores dimensões, colocados em baixo, junto ao Retábulo, acrescentando, simultaneamente, que os mesmos já tinham sido retirados de lá.
  • 6.  D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, descreve (1642) o Altar/Retábulo de S. Vicente, referenciando os “painéis do retábulo com vários milagres do santo, com os passos principais de sua vida e martírio”. Não assinala qualquer falha ou ausência dos seis Painéis que tinham sido retirados anteriormente...
  • 7.     Em 1690, o Retábulo foi apeado e os painéis que o integravam ficaram guardados na Sé, até que, em 1742, foram limpos e emoldurados e, depois, enviados para o Palácio da Mitra (Marvila) por ordem do Cardeal-Patriarca D. Tomás de Almeida
  • 8.    O inventário efectado aos bens deste Palácio (1754) arrola 12+2 painéis com cenas da vida de S. Vicente.
  • 9.    A partir de um debate ocorrido entre os dois ramos da Ordem dos Agostinhos (1763-1768), sobre um painel existente no Palácio da Mitra, que ilustrava uma cena da trasladação das relíquias do Santo, ficámos a saber que existiam ali mais de doze painéis, todos relativos a S. Vicente, dos quais apenas um exibia figuras de religiosos, confirmando-se, entre todos, uma uniformidade no estilo da pintura. Compare-se os Martírios com os Painéis, de acordo com estes dados...
  • 10.  O inventário de 1821, realizado também aos bens do Palácio da Mitra, confirma a presença dos 12+2 painéis com temática vicentina. Contudo, todos estes já tinham sofrido reduções nas suas dimensões de tal modo que ficaram inferiores às actuais dimensões dos Painéis. Aliás, já se tinha provado que estes nunca estiveram naquele Palácio...
  • 11. Como explicar a iconografia dos “S. Vicentes” dos Painéis, em especial daquele que segura uma vara?
  • 12.  De referir, finalmente, que os resultados das análises laboratoriais efectuadas simultaneamente aos Painéis e às restantes obras atribuídas Nuno Gonçalves (Martírios e Santos), em especial a de 2013 (José Mendes), demonstram que a composição da camada preparatória utilizada nos Painéis difere sistematicamente da observada nos Martírios (pertencentes ao Retábulo de S. Vicente) e nos Santos, indicando que, pelo menos ao nível dos materiais empregues na preparação dos suportes, foi utilizado um lote de “gesso” distinto, o que pressupõe uma realização autónoma das restantes obras.