17 de janeiro de 2018

Os Painéis de S. Vicente de Fora






Uma paixão
 
A nossa paixão por esta pintura nasceu há meio século, éramos ainda um jovem estudante liceal, ao acompanharmos uma pequena série televisiva na qual o investigador Bélard da Fonseca expunha a sua teoria sobre os enigmas do Políptico, publicada nos cinco volumes de Os Mistérios dos Painéis e ao longo de uma dezena de anos (1957-1967).
 
Desde então o nosso interesse no tema ficou em estado latente até que voltou a acordar quando surgiram os debates públicos na sequência dos trabalhos de Theresa Schedel de Castello Branco Os Painéis de S. Vicente de Fora - As Chaves do Mistério (1994) e mais tarde de Jorge Filipe de Almeida Os Painéis de Nuno Gonçalves (2000).

A partir daqui começámos a questionar e até a pôr em causa os pressupostos das teorias mais difundidas e a reler os documentos em que se baseavam, de onde nasceu a nossa leitura e interpretação sobre o significado e razão da existência dos Painéis. Nesta investigação acabámos por introduzir um conjunto de novas abordagens e de novos documentos, inéditos nesta problemática.

Assim, as nossas conclusões, que já foram editadas em três trabalhos na modalidade POD (Print On Demand), estão agora aqui disponíveis e acessíveis, no formato pdf, a qualquer investigador, estudioso ou curioso que se interessa por esta temática:

Os Painéis em Memória do Infante D. Pedro (2012)

Os Painéis de S. Vicente de Fora – Novos Documentos, Novas Revelações (2014)
 
As Envolvências dos Painéis (2016)
 
Estes estudos, que podem continuar a ser adquiridos junto da editora, encontram-se depositados na Biblioteca Nacional, apesar desta modalidade de edição o dispensar.

De entre o grupo significativo de inovações, que os nossos estudos introduziram, queremos salientar os seguintes:
 

1.Novos documentos

Inserimos na “Questão dos Painéis” um conjunto de documentos inéditos que permitem aprofundar e clarificar testemunhos que já tinham sido publicados por outros investigadores.
 
Estão neste caso sete Visitações que foram adicionadas às duas divulgadas anteriormente: uma em 1960 por Jaime Cortesão e a outra em 1988 por Dagoberto Markl. Aqueles documentos foram recolhidos nos trabalhos publicados por Isaías da Rosa Pereira nos anos de 1970, 1978 e 1995, mas que estranhamente ainda não tinham sido integrados na temática dos Painéis. Neles se relatam o estado degradante do local onde se encontravam as relíquias de S. Vicente e a necessidade de se executarem obras de melhoramento, recorrendo para o efeito à recolha de fundos junto dos fiéis. Podemos assim acompanhar a realização dos trabalhos no altar de S. Vicente da capela-mor da Sé de Lisboa, principalmente no período compreendido entre 1462 e 1473 e concluir que a vida e martírios deste santo estariam bem explícitos no retábulo então em execução.

Um outro testemunho inédito que acrescentámos, prendeu-se com um trecho de um parecer dirigido a D. João III, elaborado por Francisco Pereira Pestana, que está em linha com um outro, do mesmo autor, divulgado inicialmente por Arthur da Motta Alves, em 1936, e posteriormente recuperado por Dagoberto Markl em 1988. De acordo com a leitura efectuada por este investigador, os Painéis (em especial os de maior dimensão) estiveram presentes no altar de S. Vicente na capela-mor da Sé de Lisboa. Concretamente, o novo documento, inserido num ensaio de Maria Leonor Garcia da Cruz de 1997, permite concluir que tanto o painel dos Cavaleiros, como o dos Frades também marcaram a sua presença naquele local da Sé. Mais recentemente encontrámos este mesmo texto, com ligeiras diferenças na grafia, numa publicação de 1984.

Dada a pouca divulgação atingida pelos os nossos trabalhos desenvolvemos esforços, junto de diversas entidades para que, pelo menos estes documentos, tivessem uma maior difusão. Infelizmente estas diligências não obtiveram qualquer resultado prático…

Para além dos testemunhos acima referidos adicionámos outros inéditos, que louvam a qualidade da pintura e que permitem confirmar os documentos anteriormente divulgados, relativos ao retábulo do altar de S. Vicente que existiu na capela-mor da Sé de Lisboa.


2.Novas leituras sobre documentos já divulgados.

Existe um conjunto de documentos cujas leituras e interpretações têm-se mantido constantes ao longo do tempo.

Por exemplo, a descrição que o arcebispo D. Rodrigo da Cunha faz do retábulo de S. Vicente então existente (1642) na capela-mor da Sé de Lisboa, tem levado alguns investigadores, apesar do relato que refere a presença de painéis com cenas da vida e milagres do santo, a defenderem que se tratam dos Painéis do MNAA. No entanto, e logo de seguida àquele descritivo, o prelado oferece-nos uma breve síntese biográfica de S. Vicente onde descreve as principais cenas da vida, martírios e milagres do santo que, concluimos nós, estariam pintadas no retábulo. Este trecho deveria ser, por isso, tomado em consideração como um auxiliar precioso àquele texto…

Uma outra citação recorrente, presente nos trabalhos sobre os Painéis, diz respeito aos elogios que Francisco de Holanda teceu (1548) ao o pintor Nuno Gonçalves “que pintou na Sé de Lisboa o altar de S. Vicente” e que “quis imitar nalguma maneira o cuidado e a discrição dos antigos e italianos pintores”. Também aqui os investigadores se repetem concluindo, pela alta qualidade pictórica do Políptico, que seria esta a pintura que tinha sido louvada. Todavia, se lermos o ideal de pintura defendido por aquele humanista, “movimentos, nas mãos e nos pés, e nos corpos” e que estes “não ocupassem confusamente toda a tábua ou lugar onde se põem, mas que deixem alguns espaços vazios e dilatados para darem despejo e clareza à sua obra”, verificamos que estes princípios nunca são citados por aqueles estudiosos, precisamente porque não estão presentes nos Painéis…

As Tapeçarias de Pastrana têm entrado pontualmente neste debate, pelas comparações feitas entre as armas, cotas de malha, capacetes e até aos rostos patentes nestas duas obras de arte, como forma de se poder balizar uma data de execução da pintura. Curiosamente o capacete do “cavaleiro mouro” do Políptico, a que os diversos estudiosos atribuem várias origens ou então a não existência de outro igual, encontra réplicas numa daquelas tapeçarias…


3.As inscrições visíveis nos Painéis

Os textos, inscrições ou letras que se encontram visíveis na pintura têm sido alvo de diversas interpretações ou simplesmente ignorados por quem tem estudado os Painéis. Limitamos, aqui, a tecer algumas observações a três destes registos.

No colar do cavaleiro de verde existem duas letras, salientadas pela primeira vez por Belard da Fonseca em 1959, mas que não mereceram grande atenção por parte dos investigadores e que, na nossa óptica, poderão corresponder às iniciais do pintor…

No “livro ilegível” do chamado “judeu” encontra-se uma inscrição, perfeitamente legível, que está a ser assinalada pelo indicador da mão direita da personagem que segura esse livro. Foi descoberta por Belard da Fonseca em 1963, embora não lhe tenha dado qualquer relevo, e corresponde ao nome de uma figura estrangeira que esteve em Portugal em meados do século XV Todavia, os diversos autores não aceitam essa leitura porque, caso contrário, isso iria pôr em causa as suas teses/teorias, sejam elas a “vicentina”, a “fernandina”, a “mista”, que combina as duas anteriores, ou ainda outras menos divulgadas…

Os textos legíveis nas páginas do livro aberto que o santo segura têm dado origem a muitas conclusões, em especial o da primeira que, na nossa óptica, deve ser interpretado à luz dos acontecimentos que vieram a culminar na batalha de Alfarrobeira. Igualmente podemos concluir que existe uma inter-ligação entre as duas páginas (a palavra “pai” encontra-se tapada na 1ª mas é legível na 2ª) que nos aponta para a cena representada no painel do Arcebispo, dado que a frase inicial da 2ª página nos diz que o “pai” se encontra à direita…


4.Um Santo, duas cenas

Não se vislumbra qualquer acto de veneração em direcção ao santo, mas sim duas cenas que justificam a sua presença: a devoção da jovem no painel do Infante e uma tomada de posse na outra tábua, que se deu no dia em que a Igreja comemora esse mesmo santo…

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Clemente Baeta

 
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