SOBRE OS PAINÉIS: A SURPRESA QUE
NOS TRAZ UM NOVO DOCUMENTO.
A História
da Arte constrói-se a partir de minúsculos interstícios: fragmentos, esboços,
entrelinhas de documentos, testemunhos de arquivo. Nasce da nossa capacidade de
exercitar as microscopias e enfrentar as desmemórias. No caso da secular
Querela dos Painéis de São Vicente, mais que o sensacionalismo das
grandes teses, tem sido o saber nascido da pesquisa séria que vai
lavrando pistas e sedimentando os saberes.
Desde a ´revisão de um processo
arquivado’ feita por Dagoberto Markl (1988) ao chamado Documento
do Rio de Janeiro (o qual descreve, no tempo de D. Sebastião, os Painéis
de São Vicente como existentes na Sé) que não surgia um documento tão
importante para a magna Questão Nuno Gonçalves ! Coube agora a
Clemente Baeta, no recente livro Os Painéis fora do Labirinto (2023),
o mérito deste achado.
É uma preciosidade: trata-se de uma
carta de 3 de Setembro de 1491 escrita a D. João II pelo célebre Cardeal
Alpedrinha, D. Jorge da Costa, arcebispo de Lisboa, e cujo teor só se percebe à
luz do que nos diz o Doc. do Rio de Janeiro sobre o facto de o rei ter mandado
pintar o rosto de seu filho sobre o de São Vicente nas duas tábuas maiores
existentes no altar vicentino da Sé.
Escrita a seguir à trágica morte do
Infante D. Afonso (1475-1491), filho único de D. João II (e herdeiro do tão
desejado trono ibérico), na queda do cavalo a 13 de Julho na Ribeira de
Santarém, é uma missiva de condolências da parte de quem, tendo sido exilado em
Roma por ordem régia, não nutria especial amizade pelo monarca … E tal
antipatia não é ocultada pelo tom dessa carta escrita em Roma em que, a dado
momento, o Cardeal-Arcebispo critica o rei por não lhe ter dado ouvidos:
«… que não adorásseis vosso filho, que não era oficio de Rei Cristão
adorar a outrem senão a Deus…», já que «o pecado da Idolatria nunca o
quis dissimular sem alguma espécie de castigo e pena». A seguir, vitupera o
monarca enlutado por não ter seguido o seu avisado «conselho» (sic): «…V.A.
não amava o seu filho, mas adorava-o, e quanto é ao que fora padecia do amor de
Deus, e das cousas Dele parecíeis esquecido… porque parecíeis imitar os Antigos
que mandavam fazer imagens de seus filhos, e as mandavam adorar, o que não
devia fazer Principe Cristão que amar a Deus mais que os filhos» (BNP,
Reservados, Cód. 3776, fls. 17 a 20).
Este contributo de Clemente Baeta
(autor que não sigo, porém, na extensão das suas teses) é deveras relevante
para a questão dos Painéis, pois coloca mais uma vez na Sé os
Painéis de S. Vicente e reforça o que diz o anónimo relator do Doc. do Rio de
Janeiro (c. 1570-80) a respeito do repinte ideológico (chamemos-lhe
assim) mandado fazer por D. João II nos rostos centrais de S. Vicente (nos
painéis ditos do Infante e do Arcebispo) com a efígie do seu filho, e que os
exames laboratoriais de 1994 confirmaram sem reservas. Assim, o Príncipe D. Afonso,
que pelo casamento com a filha dos Reis Católicos estava fadado para governar o
maior império cristão universal, merecia ser adorado na sua dupla dimensão
humana e ‘quase divina’ pelos augúrios da Política – um projecto
que a tragédia de Santarém veio brutalmente anular, o que, com tanta crueza de
palavras, D. Jorge da Costa destaca na sua carta atribuindo-lhe… castigo
divino.
Ou seja:
1. em 1491 os Painéis estavam na
Sé;
2. o retrato do malogrado príncipe
cobria o de S. Vicente nas tábuas ditas do Infante e do Arcebispo;
3. o ‘repinte ideológico’ fora
feito antes do casamento de D. Afonso com a princesa D. Isabel de Castela em
Estremoz (3 de Novembro de 1490).
4. tal apropriação
iconográfico-identitária provocava críticas nos círculos de detractores do rei.
5. os exames laboratoriais dos
Painéis confirmaram tal refazimento das duas faces do Santo, dando crédito às
fontes documentais.
Assim, a carta de D. Jorge da Costa
a D. João II de 1491, sem explicitamente se referir às pinturas de Nuno
Gonçalves, torna-se um valiosíssimo documento (mais um !) para reforçar as
valências do testemunho do chamado Doc. do Rio de Janeiro.
No momento em que as tábuas
quatrocentistas estão a ser alvo de um exame laboratorial no M.N.A.A., é altura
própria para se apurar o assunto do repinte dos rostos do Santo. E termino
estas notas de leitura do último livro de Clemente Baeta, autor que nos traz
(não sendo ele «vicentista») um valioso contributo documental para a questão !
O que não teria Dagoberto Markl (1939-2010) avançado e escrito nesta eterna
discussão painelística se tivesse tido conhecimento desta carta !
Comentário adicional
O livro de Clemente Baeta (o nono sobre os Painéis !) é interessante, como
os anteriores, e traz sempre releituras de fontes conhecidas e/ou novidades
(como é o caso) sobre o magno problema da H. Arte portuguesa. Não estou de
acordo com a sua tese fundamental (nesta matéria, sou vicentista, gonçalvista
e... dagobertista, e ele é só... gonçalvista) mas como sempre tenho dito, mesmo
nas teses mais infundadas sobre os Painéis se descobrem luzes. Mesmo Henrique
Loureiro escreveu, numa tese erradíssima, pp. admiráveis sobre o Arcebispo dos
Painéis. E Teresa Schedel sobre o Vereador. E Bélard sobre inúmeros detalhes.
etc. etc. O tema PAINÉIS DE S. VICENTE precisa cada vez menos de sectarismo e
mais de lucidez. Salvo o pintor, salvo a cronologia (e, diria, sobre o Santo,
S. Vicente), sabemos tão pouco ainda ! Para já nem falar da identidade das
maioria das maioria das 60 personagens...
N.B. Estes textos foram publicados no grupo "Micro-História da Arte" do Facebook (25/09/2023) pelo o Prof. Vítor Serrão dando destaque ao subcapítulo "Uma carta de condolências" do nosso estudo "Os Painéis fora do Labirinto".